Houve um tempo em que eu achava saber a resposta: significa que eu
iria pensar em Savannah mais do que em mim mesmo, e
passaríamos o resto
de nossas vidas juntos. Não seria difícil. Ela me disse certa vez que
a
chave para a felicidade é ter sonhos realizáveis, e os dela não eram
nada fora do comum. Casamento, família... o básico. Isso significa que
eu teria um emprego estável, uma casa com cerca branca e uma minivan ou
SUV grande o suficiente para levar nossos filhos à escola, ao dentista,
ao treino de futebol ou aos recitais de piano. Dois ou três filhos – ela
nunca foi clara a respeito, mas meu palpite é que quando chegasse a
hora, ela deixaria a natureza seguir seu curso e Deus tomar a decisão.
Ela era assim – religiosa, quero dizer – e suponho que esse tenha sido
um dos motivos pelos quais me apaixonei por ela.
Independentemente do
que acontecesse em nossas vidas, eu me imaginava ao fim do dia deitado
na cama ao lado dela, nós dois abraçados enquanto conversávamos e
ríamos, perdidos nos braços um do outro.
Não parece tão absurdo, certo? Quando duas pessoas se amam? Foi
também o que pensei. E,
enquanto uma parte de mim ainda quer acreditar
que isso seja possível, sei que não vai acontecer. Quando eu for embora
de novo, nunca mais vou voltar.
Por enquanto, porém, vou sentar-me na encosta que dá vistas à
fazenda e esperar que ela apareça. Ela não vai me ver, é claro. No
exército, você aprende a se misturar com a paisagem, e eu aprendi muito
bem, pois não quero morrer em uma vala estrangeira no meio do deserto
iraquiano. No entanto, tive de voltar a esta cidadezinha montanhosa na
Carolina do Norte para descobrir o que aconteceu. Quando alguém termina
algo mal resolvido, sente um desconforto, quase uma dor, até descobrir a
verdade.
Porém, estou certo de uma coisa: Savannah nunca saberá que estive aqui hoje.
Parte de mim dói ao pensar que ela está tão perto e eu não posso
tocá-la, mas
nossas histórias seguiram caminhos diferentes. Não foi
fácil aceitar essa verdade simples, pois houve um tempo em que nossas
histórias eram uma só, mas isso aconteceu seis anos e duas vidas atrás.
Nós dois temos lembranças, é claro, mas aprendi que
as memórias podem
ter uma presença física, quase viva, e nisso Savannah e eu também somos
diferentes. Enquanto as lembranças dela são estrelas no céu noturno, as
minhas compõem o assombrado espaço vazio entre elas. E, ao contrário
dela, sinto o peso de perguntas que já me fiz mil vezes desde nosso
último encontro. Por que fiz aquilo? Faria tudo de novo?
Fui eu, veja bem, quem terminou tudo.
Nas árvores ao meu redor, as folhas estão apenas iniciando sua
lenta mutação para o vermelho fogo, brilhando como o sol que espreita ao
longe no horizonte. As aves gorjeiam para a alvorada, o ar está
perfumado com aroma de pinho e terra, diferente da água salgada da minha
cidade natal. De repente, a porta da frente se escancara e eu a vejo.
Apesar da distância entre nós, prendo a respiração enquanto ela invade o
dia. Ela se espreguiça antes de descer os degraus da entrada e
dirigir-se para a lateral da casa. Savannah atravessa a porteira e segue
em direção ao pasto à sua frente, que reluz como um oceano verde. Um
cavalo a saúda, outro também, e meu primeiro pensamento é que Savannah
parece pequena demais para se mover tão facilmente entre eles. Mas ela
sempre ficou confortável em meio aos cavalos, e eles com ela. Uma meia
dúzia de animais mordisca a grama ao pé da cerca, a maioria quarto de
milha, e Midas, seu cavalo árabe negro com meias brancas, está apartado.
Montei com ela uma vez, e com sorte não me feri. E, enquanto eu me
agarrava com todas as minhas forças ao cavalo, lembro de pensar que ela
ficava tão relaxada na sela, que era como se estivesse assistindo
televisão. Savannah se detém um momento para cumprimentar Midas. Ela
esfrega o nariz dele sussurrando algo e acaricia as ancas do cavalo, que
fica de orelhas em pé quando ela se vira e parte para dentro do
celeiro.
Ela desaparece e ressurge carregando dois baldes – aveia, acho.
Pendura nas estacas, e um par de cavalos trota em sua direção. Savannah
se afasta para dar passagem e observo seu cabelo esvoaçar na brisa. Ela
pega a sela e a rédea. Enquanto Midas come, ela o prepara para cavalgar,
e logo depois o conduz da pastagem para as trilhas na floresta,
exatamente como fez seis anos atrás. Sei que não é verdade – eu a vi de
perto no ano passado e notei as primeiras rugas surgindo ao redor dos
olhos – mas o prisma pelo qual a vejo continua imutável. Para mim, ela
sempre terá vinte e um anos e eu, vinte e três. Eu servia na Alemanha;
ainda não tinha ido a Fallujah ou Bagdá, nem recebido a carta dela, que
li na estação de trem em Samawah nas primeiras semanas de campanha;
ainda não tinha voltado para casa por causa dos eventos que mudaram o
rumo da minha vida.
Hoje, aos vinte e nove anos,
às vezes me pergunto sobre as
escolhas que fiz. O exército se tornou a única vida que conheço. Não sei
se deveria estar arrependido ou satisfeito por isso;
a maior parte do
tempo oscilo, depende do dia. Quando as pessoas perguntam, digo que sou
um peão, e é exatamente isso que quero dizer. Ainda vivo em uma base na
Alemanha, tenho cerca de mil dólares de economias e não saio com uma
mulher há anos. Não surfo como antes nos dias de licença. Nas folgas,
dirijo minha Harley para o sul e para o norte, dependendo do meu humor. A
Harley foi a melhor coisa que já comprei, embora lá custe uma fortuna. É
ideal para mim desde que me tornei um tipo solitário. A maioria dos
meus camaradas abandonou o serviço, mas eu provavelmente serei enviado
de volta ao Iraque nos próximos meses. Pelo menos, esses são os rumores
que circulam na base. Quando conheci Savannah Lynn Curtis – para mim,
ela será sempre Savannah Lynn Curtis –, não poderia prever o rumo que
minha vida tomaria, nem acreditava que faria carreira no exército.
Mas eu a conheci; e é isso que torna minha vida atual tão
estranha. Eu me apaixonei por ela enquanto estávamos juntos, e me
apaixonei ainda mais nos anos em que ficamos separados. Nossa história
tem três partes: um começo, um meio e um fim. Embora seja assim que
todas as histórias se desenrolam, ainda não consigo acreditar que a
nossa não durará para sempre.
Reflito sobre essas coisas, e como sempre, nosso tempo juntos
retorna à minha mente. Relembro como tudo começou, pois
agora essas
memórias são tudo o que me resta.
Te amo pra sempre!
Fonte:
Trecho de Querido John, de Nicholas Sparks